quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O seu olhar era tão límpido como um lago em dias solarengos. Os olhos transpareciam apenas o sentir profundo de um ser vivo evoluído, quer no carácter, quer na forma como esse mesmo carácter se manifestava na relação com o mundo. E, no entanto, era-me difícil descer até ao seu mais íntimo pensamento, ao seu mais ínfimo desejo. Ela olhava-me frontalmente. Diria, quase com modos inquisitórios, exigindo o mesmo de mim.

" O que podes fazer, pergunto-te, senão manteres o diálogo com a vida? Agora devias olhar para o teu céu interior, esqueceres o desejo de tudo querer compreender. Desvia o teu olhar do meu, deixa-te ser simplesmente observada. Ah, eu sei quanto é difícil manteres o teu olhar afastado dos meus olhos, imano magnetismo, sou carismática. Repara bem no enigma da minha existência, se me vejo no espelho é-me impossível resistir aos meus encantos. Mas, muito mais irresistível é a voz que se esconde nesse revelador de sons que é, simultaneamente, uma janela aberta para o enigma da existência de cada um..."

O gesto repete-se nela de modo tão natural. Às vezes, escondida e, silenciosamente, espreito-a a mirar-se no espelho. Sabe que é ela e gosta de se ver, fica imóvel como uma esfinge. São intervalos de tempo ocupados com a suspensão da lucidez...Menos a minha do que a dela, suponho, mas, em contrapartida, não é ela quem se desmorona perante a insustentabilidade da razão, nem é ela que se recusa a sobreviver. Sabe fazê-lo com inteligência e dignidade, é um ser, maravilhosamente, dotado de complacência para com o ser humano.