A GATA SÁBIA

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O seu olhar era tão límpido como um lago em dias solarengos. Os olhos transpareciam apenas o sentir profundo de um ser vivo evoluído, quer no carácter, quer na forma como esse mesmo carácter se manifestava na relação com o mundo. E, no entanto, era-me difícil descer até ao seu mais íntimo pensamento, ao seu mais ínfimo desejo. Ela olhava-me frontalmente. Diria, quase com modos inquisitórios, exigindo o mesmo de mim.

" O que podes fazer, pergunto-te, senão manteres o diálogo com a vida? Agora devias olhar para o teu céu interior, esqueceres o desejo de tudo querer compreender. Desvia o teu olhar do meu, deixa-te ser simplesmente observada. Ah, eu sei quanto é difícil manteres o teu olhar afastado dos meus olhos, imano magnetismo, sou carismática. Repara bem no enigma da minha existência, se me vejo no espelho é-me impossível resistir aos meus encantos. Mas, muito mais irresistível é a voz que se esconde nesse revelador de sons que é, simultaneamente, uma janela aberta para o enigma da existência de cada um..."

O gesto repete-se nela de modo tão natural. Às vezes, escondida e, silenciosamente, espreito-a a mirar-se no espelho. Sabe que é ela e gosta de se ver, fica imóvel como uma esfinge. São intervalos de tempo ocupados com a suspensão da lucidez...Menos a minha do que a dela, suponho, mas, em contrapartida, não é ela quem se desmorona perante a insustentabilidade da razão, nem é ela que se recusa a sobreviver. Sabe fazê-lo com inteligência e dignidade, é um ser, maravilhosamente, dotado de complacência para com o ser humano.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Apologia da Luz no Pomar do Reino de Kush
*
"O MEU NOME É ZEMYORKA ANASTÁCIA E TENHO UM DOM, DISTRIBUIR LÂMPADAS DE CASQUILHO FINO."

Desde há muitos séculos, no reino da Lightland, conta-se uma história sobre o segredo de uma gata tricolor que pertenceu a um frade copista e astrónomo.
Há quem, no entanto, diga que ZA, a gata sábia, pertenceu, igualmente, a Montaigne.
Mais recentemente, a gata tricolor viveu em casa de uma senhora portuguesa e residente no Porto. Em sua casa encontrámos um espólio valioso e significativo que nos proporcionou um conhecimento mais aprofundado sobre as sete vidas de Zemyorka Anastácia.
Assim, o arquivamento de documentos, relativos à vida e obra desta gata, tomará carácter público e será disponibilizado à medida que todo o processo de recolha de informação for devidamente informatizado.
Quando procedíamos à listagem alfabética de vários mapas, que assinalam os lugares onde esta gata viveu, fomos surpreendidos com uma carta anexada ao mapa da memória. Nela se relata a viagem de uma espanhola que terá conhecido Miguel Cervantes durante o período em que o escritor escreveu El Coloquio de los Perros. Diz Donã Pilar que se tratou de uma pequena deslocação a casa de amigos, donos de uma gata tricolor, a quem Cervantes teria consultado, pois era do domínio público ser esta gata dotada com a virtude da 7ª árvore do pomar do reino de Kush.
A continuar...